Adaptação cinematográfica - a fidelidade continua a ser um tema relevante?

É digno de Saramago? É fiel à obra de Tolstói? Captou a essência de Kafka? Estas
e outras perguntas pairam nas cabeças de todos os leitores que vêem no cinema a
adaptação de obras literárias. Geralmente, o resultado de uma adaptação é avaliado consoante a sua fidelidade ao original. Num período inicial, o estudo e as críticas sobre
as adaptações cingiam-se, essencialmente, ao problema da fidelidade do filme face ao
texto original e o axioma que o resultado fílmico é quase sempre inferior à literatura
(Hatry, 2017).

Apesar de, teoricamente, estar desacreditada, a temática da fidelidade é, ainda
hoje em dia, muito debatida nos estudos da adaptação. McFarlane (1996) considera que
a discussão em torno desta questão tem atormentado a discussão sobre a adaptação e
obscurece outros temas potencialmente relevantes. O debate em redor da fidelidade
coloca questões importantes acerca da recriação fílmica do cenário, do enredo, das
personagens, dos temas e do estilo do romance. Quando se diz que uma adaptação foi
infiel ao original, a própria violência do termo dá expressão ao intenso sentimento de
traição que sentimos quando uma adaptação fílmica não consegue captar aquilo que
consideramos narrativa fundamental, temática ou características estéticas da sua fonte
literária. A noção de fidelidade ganha o seu poder persuasivo a partir do momento em
que sentimos que a) algumas adaptações são melhores do que outras e b) algumas
adaptações não conseguem transmitir o que mais apreciámos na obra literária (Stam,
2005).

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Ao longo da história das adaptações cinematográficas de romances célebres
houve um “elocuente muestrario de fidelidades estériles y de infidelidades –y aun
traiciones– fecundas” (Gimferrer, 1999: 10). Gimferrer defende que uma boa adaptação
não tem de ser fiel até ao mais ínfimo pormenor, dando como exemplo o caso do filme
Días tranquilos en Clichy, cuja adaptação é fiel, mas não cai no servilismo nem fica
maniatada cinematograficamente pela sua fidelidade à letra e ao espírito do texto. O
autor espanhol constata que numa grande parte da história do cinema, houve
adaptações de obras de escasso valor literário ou adaptações de obras de qualidade que
foram objecto, no guião, de um tratamento que as degradou ao nível daquelas de baixo
valor. Actualmente, assistimos a adaptações de obras literárias com fraca qualidade a
alcançar um grande sucesso nas bilheteiras, como é o caso do filme 50 Sombras de Grey
(2015), da escritora britânica E. L. James, e realizado no cinema por Sam Taylor-
Johnson.

Muitos admiradores e críticos discutem sobre a fidelidade que o filme deve ter
para com o livro em que se baseia. O que nos faz questionar se, realmente, uma
adaptação cinematográfica deve procurar manter-se leal ao texto original. Na
perspectiva de Diane Lake (2012), guionista do filme biográfico de Frida Kahlo Frida
(2002), baseado no livro de Heyden Herrera, apenas o facto de perguntar se o filme pode
fazer justiça ao livro resulta, imediatamente, num fracasso em compreender a própria
entidade do livro e, também, a do próprio filme.

A leitura tem, obrigatoriamente, uma natureza interna. Quando um leitor decide
ler um livro, a sua interpretação do mesmo vai ser diferente de todos os outros leitores,
pelo facto de que um livro não é um “vase, a static object to be photographed, to be
represented in such a manner that everyone sees the same thing. A book is fluid, it is
open to interpretation and every reader interprets it just a bit differently” (Lake, 2012: 408-409). Stam observa que “the words of a novel have a virtual, symbolic meaning”
(2005: 14), e que nós, enquanto leitores, tentamos compreender a ambiguidade
paradigmática das palavras. Esta particularidade da literatura é o que a torna tão
singular e difícil de transpor para outros meios.

Inserido nesta temática, há uma discussão relativamente à impossibilidade de
uma adaptação literal. A maioria dos teóricos defende que uma adaptação fiel ao texto-fonte
é impossível, argumentando que o facto de serem dois meios artísticos diferentes
e de possuírem linguagens distintas impossibilita, desde logo, qualquer tipo de
fidelidade.

De acordo com Sánchez Noriega (2000), a fidelidade não é possível em obrasprimas
cuja densidade e complexidade narrativas tornam vã qualquer pretensão de uma
adaptação literal, tal como não é possível naquelas cujo valor estético reside
basicamente no estilo literário. De qualquer forma, observa o autor, a aposta em ser fiel
ao texto literário nunca constitui uma garantia de sucesso, pois, as transformações
necessárias para contar uma história com outra forma noutro meio de expressão põem
em causa o próprio conceito de fidelidade.

Em Literature and Film. A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation
(2005), Stam coloca algumas questões pertinentes, como: fidelidade a quê ou a quem?
O realizador tem de ser fiel ao enredo em todo o seu detalhe? Isso poderia significar
uma versão de 30 horas de Guerra e Paz. Deveria ser ele fiel às características físicas das
personagens? Talvez, mas e se o actor que preenchesse os requisitos fosse um péssimo
actor?

É vital ter a noção que a estrutura dramática do filme e do romance são
diferentes: enquanto o material do romance são as palavras, o do filme são as imagens.
Gimferrer (1999) afirma que para fazer um filme basta ter imagens, no entanto, não é o
suficiente para criar uma narrativa fílmica, tal como se escreve um texto apenas
servindo-nos apenas de palavras, mas não um romance.

Logo, conclui Manzano Espinosa, “una adaptación […] no es más efectiva cuanto
más fiel sea a la historia, sino cuando contiene y maneja una serie de elementos
imprescindibles para el relato en imágenes” (2008: 125).


GIMFERRER, Père, Cine y literatura, Barcelona: Seix Barral, 1999.

HATRY, Laura, “Poder, violencia y política en el cine y la literatura hispanoamericana”,
dissertação apresentada na Universidad Autónoma de Madrid para obtenção do grau
de Doutor, 2017.

MCFARLANE, Brian, Novel to film: an introduction to the theory of adaptation, Oxford:
Clarendon Press, cop. 1996 (imp. 2004).

MANZANO ESPINOSA, Cristina, La adaptación como metamorfosis: transferencias entre
el cine y la literatura, Madrid: Fragua, 2008.

LAKE, Diane, “Adapting the Unadaptable – The Screenwriter’s Perspective” in A
companion to literature, film, and adaptation, edited by Deborah Cartmell, Malden:
Willey-Blackwell, 2012.

SÁNCHEZ NORIEGA, José Luís, De la literatura al cine. Teoría y análisis de las
adaptaciones, Barcelona: Paidós, 2000.

STAM, Robert, RAENGO, Alessandra, Literature and film: a guide to the theory and
practice of film adaptation, Oxford: Blackwell Publishing, 2005.