A essência do mito na Literatura.

Originado na Grécia Antiga, o conceito de “mythos” está, fundamental e
intimamente, relacionado com as narrativas tradicionais (Burkert, 1993). O conceituado
dicionário estado-unidense Merriam Webster define, de uma maneira simplificada e
incompleta, mito como “a pattern of beliefs expressing often symbolically the
characteristic or prevalent attitudes in a group or culture”.

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Vários estudiosos tentaram desenvolver uma definição de mito que fosse aceite
pela totalidade dos estudiosos e que, simultaneamente, fosse facilmente compreensível
aos olhos dos não especialistas. Na opinião de Mircea Eliade, definir este conceito é
uma missão espinhosa, visto que “é uma realidade cultural extremamente complexa,
que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares”
(1986: 12). Uma interpretação “menos imperfeita”, na perspectiva desta autora, é o
mito como narração de uma “história sagrada, que relata um acontecimento que teve
lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso dos «começos»”.

Por sua vez, e de uma perspectiva mais cosmogónica, Álvaro M. Machado e
Daniel Pageaux consideram que o mito é “sempre um cenário mítico, […] que narra e
explica […] uma ordem do mundo” (1988: 125). É uma “narrativa que dá um sentido
ao universo”, no sentido em que demonstra como uma sociedade se organiza (idem,
ibidem). Nesta linha de pensamento, Eliade acrescenta que “os mitos relatam não só a
origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também todos os
acontecimentos primordiais em consequência dos quais o homem se transformou
naquilo que é hoje” (1986: 17). De um modo geral, acreditamos que o ser humano não
consegue subsistir a si próprio no universo sem uma crença num acordo da herança
integral do mito (Campbell, 1960), visto que “os mitos despertam no Homem
pensamentos que lhe são desconhecidos” (Lévi-Strauss, 1981: 13).

No que à literatura diz respeito, há imensos mitos que estão enraizados na cultura
ocidental e que ainda hoje em dia são estudados. É o caso da tragédia de Sófocles
Oedipus Rex (c. 427 a.C.) ou Don Juan, encenado, pela primeira vez, no século XVII
pelas mãos do frade espanhol Tirso de Molina, e, mais tarde, explorado por
personalidades como Brecht, Molière, Mozart, Saramago, entre muitos mais. Estes e
outros mitos voltaram a ser vistos como case studies especialmente a partir dos anos 60
e 70 do século XX, aquando do surgimento das noções de mitocrítica e mitanálise, i.e.
sistemas de interpretação antropológica da cultura concebidos por Gilbert Durand
(Sequeira, 2014). Os mitos estão a ser constantemente reescritos, originando, portanto,
versões diferentes da mesma história.

Nas últimas décadas, temos vindo a assistir cada vez mais a uma reescrita do mito, adaptando-o, por vezes, aos tempos modernos. O sucesso e o interesse que o mito gera nos tempos de hoje demonstra que “[o mito] continua vinculado a aspectos da modernidade e em harmonia com a sensibilidade colectiva na expressão de problemas de hoje” (Sequeira, 2014: 450). Por exemplo, o romance The human stain, de Philip Roth, em que há claramente alusões relativas ao mito de Édipo, ou em Bastardia, de Hélia Correia, em que se fala do mito das sereias. Em várias obras de autores hispano-americanos, como, por exemplo, García Márquez, Vargas Llosa, Miguel Ángel Asturias, entre outros, vamos encontrar mitos como o Apocalipse, a expulsão do Paraíso, a proibição do Incesto, et cetera (Camacho Delgado, 2006: 21). O mito tem esta capacidade: a de contar uma história num “tempo imemorial, in illo tempore, mas que se mantém, ainda e sempre, válido” (Machado e Pageaux, 1988: 126). O mito influencia a literatura através da sua “natureza criativa, inspiradora e paradigmática” (Castro, 2014), sendo que o mito, apesar da transformação que vai sofrendo pela escrita e actividade hermenêutica no decorrer dos anos, é “constantemente retomado na literatura para reconfigurar e definir estruturas narrativas e personagens” (idem, ibidem).

No que toca às personagens que protagonizam os mitos, há um certo consenso que
estes relatam a história de seres sobrenaturais, geralmente deuses ou heróis (por
exemplo, Hércules, Prometeu, entre outros); estes mitos “descrevem as diversas e
frequentemente dramáticas eclosões do sagrado (ou do «sobrenatural») no Mundo” e “é
graças a estas intervenções dos Seres Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser
mortal, sexuado e cultural” (Eliade, 1986: 13). Os protagonistas dos mitos, segundo
Seillier, “agissent en vertu de mobiles largement étrangers au vraisembable, à la
psichologie «raisonnable»" (1984: 114), como, por exemplo, quando Prometeu foi aos
céus e roubou o fogo dos deuses, regressando à Terra. O herói, na perspectiva do
sociólogo Roger Callois, surge para resolver os problemas socais e psicológicos que o
indivíduo enfrenta no dia-a-dia, tomando o lugar do indivíduo, transgredindo as
proibições a que este está sujeito (Caillois, 1980). Este autor define o herói como sendo
“aquele que fornece a estas [situações míticas] uma solução, uma saída feliz ou infeliz” (1987: 24).

Em suma, a adaptação do mito à literatura dá-se num plano de “linguagem duplamente secundária” ou “simbólica” (Machado e Pageaux, 1988) pelos seguintes factores:

i) o escritor retira dele uma história que vai aprofundar e desenvolver;
ii) o escritor vai-se conciliar e dedicar-se à história que o mito nos conta, visto que
ela está intima e pessoalmente ligada com o escritor;
iii) existe, por um lado, realidade mítica e, pelo outro, características próprias do
escritor, o que vai originar novos significados na versão actual do mito.

(Machado e Pageaux, 1988)

A relação entre o mito e a literatura existe desde que o Homem começou a pensar e
a transpor esses pensamentos, primeiro, na palavra e depois na escrita (Herrero Cecilia
e Morales Peco, 2008).


BURKERT, Walter (1991). Mito e mitologia. Lisboa: Edições 70. Colecção: Perspectivas
do Homem.

CAILLOIS, Roger (1980), O mito e o homem. Lisboa: Edições 70. Colecção: Perspectivas do homem.

CAMACHO DELGADO, José Manuel (2006). Comentarios filológicos sobre el realismo
mágico. Madrid: Arco/Libros.

CAMPBELL, Joseph (1960). The masks of God: primitive mythology. London: Secker &
Warburg.
Disponível em: http://qwertp.com/Book_s/pdf_BooKs/Campbell,%20Joseph%20-%20The%20Masks%20of%20God%20-%20Primitive%20Mythology.pdf

ELIADE, Mircea (1986). Aspectos do Mito. Lisboa: Edições 70. Colecção: Perspectivas
do Homem.

HERRERO CECILIA, Juan, MORALES PECO, Monserrat (2008) in Reescrituras de los
mitos en la literatura : estudios de mitocrítica y de literatura comparada / Pierre
Brunel… [et al.] ; edición preparada por: Juan Herrero Cecilia, Montserrat Morales Peco.
Cuenca : Ediciones de la Universidad de Castilla-La Mancha.

LÉVI-STRAUSS, Claude (1981). Mito e significado. Lisboa: Edições 70. Coleccção:
Perspectivas do homem.

MACHADO, Álvaro Manuel; PAGEAUX, Daniel-Henri (1988). Da literatura
comparada à teoria da literatura. Lisboa: Edições 70.

SEQUEIRA, Rosa Maria (2014). “Mito, História, Literatura Comparada e Donjuanismo”
in Representações do mito na história e na literatura. / org. Ana Luísa Vilela [et al.].
Braga: Universidade de Évora.

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