Uma breve análise ao género policial e aos respetivos sub-géneros

Decorria o ano de 1841, quando o francês Dupin, detective nos tempos-livres, entrou, pela primeira vez, no imaginário de muitos leitores. Esta personagem fictícia, criada pelo escritor norte-americano Edgar Allan Poe, foi a protagonista da obra The murders in the Rue Morgue, voltando a aparecer em The Mystery of Marie Rogêt (1842) e em The Purloined Letter (1844). Este escritor é considerado por muitos como o ‘pai’ do romance policial, sendo que a obra inicialmente citada é considerada por uma grande parte dos críticos como o primeiro livro que se enquadra no género do romance policial (Scaggs, 2005). Para além de Poe, e já no século XX, destacamos outros dois escritores que fizeram furor dentro deste género literário: o escocês Conan Doyle e a inglesa Agatha Christie. Os célebres detectives Sherlock Holmes (criado por Doyle) e Hercule Poirot (Agatha Christie) protagonizaram várias obras destes autores, tornando este género célebre em especial nos países anglo-saxónicos, mas também um pouco por todo o mundo ocidental.

As palavras enigma, suspense e thriller são inerentes a este género literário que se caracteriza pela sua transparência, e por ser “simple, clear and direct” (Todorov, 1977: 46). Mas o que é um género literário? Ora, quando falamos em género literário, torna-se praticamente indispensável falar de Aristóteles, um dos mais célebres – senão o mais – filósofos gregos da Antiguidade, tendo sido ele a estudar mais aprofundadamente e classificar os géneros, dividindo-os em três: o épico, o lírico e o dramático. Curiosamente, hoje em dia, ainda utilizamos, na essência, esta classificação, ainda que com diferentes denominações (narrativa, poesia e teatro). Estes três géneros, que actualmente podem tanto aparecer em verso como em prosa, têm várias ramificações, o que significa que se dividem em sub-géneros: por exemplo, a fábula e o romance integram o sub-género épico (narrativo); a tragédia e a comédia são sub-géneros dramáticos; por fim, a ode e a sátira pertencem ao sub-género lírico.

O romance policial – género que se rege por normas específicas e que se enquadra na literatura de massas (Todorov, 1977) – divide-se em três sub-géneros.

O romance de enigma (whodunit, em inglês)

Este sub-género caracteriza-se pela sua dualidade, pois contém duas histórias: a história do crime e a história da investigação. Nestas duas partes há uma oposição entre ausência e presença: enquanto na primeira o narrador não nos pode transmitir directamente os gestos e respostas das personagens envolvidas (ausência), na segunda há o oposto, apesar de ser pouco ou nada relevante, pois serve apenas de mediadora entre o leitor e a história do crime. Neste tipo de romance policial, a figura do detective costuma ser imune, i.e. sabemos, desde logo, que nada de mal lhe vai acontecer. Resumindo, na primeira fase, a história já está fechada, ainda antes de começar a segunda. Na segunda parte do texto, há um exercício lento de aprendizagem.

O thriller

Muito popular após a Segunda Guerra Mundial, o thriller distingue-se do romance de enigma pela quase inexistência de mistério e pelo risco de vida que o detective pode correr. Assistimos a uma história que tem um efeito e uma causa, onde a curiosidade e o suspense estão constantemente presentes. Contrariamente ao romance de enigma, o thriller combina as duas histórias contadas, ou seja, “we are no longer told about a crime anterior to the moment of the narrative; the narrative coincides with the action” (1977: 47). As obras Convite para a Morte, de Agatha Christie, e Um Estudo em Vermelho, de Conan Doyle, são das mais célebres dentro deste género. Citando o trabalho de Van Dine, autor de romances policiais, Todorov explica as regras pelas quais este género se deve reger:

  1. The novel must have at most one detective and one criminal, and at least one victim (a corpse).
  2. The culprit must not be a professional criminal, must not be the detective, must kill for personal reasons.
  3. Love has no place in detective fiction.
  4. The culprit must have a certain importance:
    a. In life: not be a butler or a chambermaid.
    b. In the book: must be one of the main characters.
  5. Everything must be explained rationally; the fantastic is not admitted.
  6. There is no place for descriptions nor for psychological analyses.
  7. With regard to information about the story, the following homology must be observed: “author: reader= criminal: detective.”
  8. Banal situations and solutions must be avoided.
    (Todorov, 1977: 49)

Nota: destes 8 pontos, quatro (do primeiro ao quarto) estão limitados ao whodunit; os pontos 4. (b), 5, 6 e 7 são válidas no thriller.

O romance de suspense

Os géneros literários são textos capazes de se transformarem e originarem, a partir de características idênticas, novos tipos de textos. O romance de suspense serviu de transição entre o whodunit e o thriller (Todorov, 1977); caracteriza-se por voltar à ideia do crime ser cometido por motivos pessoais, em que, desde o início da história, as suspeitas da polícia recaem sobre uma certa personagem (geralmente, o protagonista), a qual terá de provar a sua inocência. Neste tipo de romance, o protagonista desempenha, muitas vezes, três papéis: é o detective, é o culpado e a vítima.

Em jeito de conclusão, estes três sub-géneros que, a priori, são geralmente designados como ‘romance policial’ diferenciam-se a vários níveis, mas, ainda assim, convivem perfeitamente (Todorov, 1977: 52). O romance policial é um género literário moldável, capaz de gerar vários sub-géneros, como é o caso do whodunit, do thriller e do suspense. Para além disso, tende a ser um género que vai directo ao assunto, i.e., que não mastiga a história e não aborrece o leitor. Existem várias regras – por assim dizer – que determinam se uma obra se insere ou não no romance policial, sendo que a mais óbvia é a regra que exige a existência de um crime, de um malfeitor e de um detective.

TODOROV, Tzvetan (1977). “The typology of detective fiction”. Disponível em formato PDF (scanner) no seguinte sítio: http://faculty.washington.edu/akn/typology.pdf

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