A tradução como meio de divulgação e partilha cultural

É possível afirmar que os conceitos de globalização e de multiculturalismo estão presentes cada vez mais no nosso dia-a-dia, exigindo, assim, uma comunicação intercultural acessível. A tradução é uma ciência social que permite a todos os cidadãos adquirir conhecimento das mais variadas culturas através da sua língua nativa, tornando o processo de adquirimento de informação relativamente mais fácil. A tradução tem um papel relevante na relação social, cultural, política entre todos os países; no entanto, é frequente assistir a uma desvalorização e até rebaixamento do papel que exerce o tradutor na sociedade; recordemos o aforismo italiano, segundo o qual, todas as traduções são infiéis ao original, e o tradutor atraiçoa o pensamento do autor: traduttore, traditore.

Este aforismo – que, na nossa opinião, é pejorativo e não corresponde à verdade – aplica-se, geralmente, na tradução literária. Uma das discussões que se perpetua entre os estudiosos da disciplina recai na possibilidade ou não da tradução literária, especialmente no texto poético, que, devido às suas características especiais e distintas da prosa, se torna bastante complicado traduzir.

Há muitas e distintas interpretações do que é a tradução a partir do ponto de vista linguístico (antes dos anos setenta do século XX) e do ponto de vista dos estudiosos de
tradução (disciplina que teve o seu boom a partir dos anos oitenta). Em Teoría de la traducción literaria, Esteban Torre (1994: 8) define a tradução de uma forma muito simples e pragmática, considerando-a como “la sustitución de un TLO [texto de la lengua original] por un TLT [texto de la lengua receptora] equivalente”. No entanto, pensamos que a tradução não se trata apenas de uma mera substituição do que está escrito de um texto para o outro; San Ginés (1997:60) propõe uma definição com a qual estamos mais de acordo; segundo ele, a tradução é como um “aparato mediador que surge entre un texto y otro, entre lo acabado y lo que se pretende producir en un nuevo objeto finalizado, es decir, enuncia el nuevo producto”. Hurtado Albir (2001) considera que a tradução se baseia em processos comunicativos, de operação textual e actividade cognitiva; a mesma autora afirma que a tradução é como um processo de interpretação e de comunicação que consiste na reformulação de um texto através de outra língua que, num determinado contexto social, tem uma finalidade específica.

Quando falamos sobre a tradução, é costume, ab initio, fazer a distinção entre o que é
uma tradução directa (palavra por palavra) e uma oblíqua (que não é literal, procurando o
significado da frase). Na tradução literária entre línguas com a mesma origem (por exemplo, o português e o castelhano, as quais provêm do latim) é comum que o tradutor traduza palavra-por-palavra devido às semelhanças das duas línguas. Por exemplo, a seguinte frase em castelhano “María no sabía quién era su verdadero padre” pode-se traducir literalmente para português da seguinte forma: “A Maria não sabia quem era o seu verdadeiro pai”. E resulta. Não obstante, trata-se de uma frase fora do contexto. É possível traduzir uma frase à letra, mas “hay que considerar que la traducción no se sitúa en el plano de la lengua sino en el plano del habla y que no se traducen unidades aisladas, descontextualizadas, se traducen textos” (Hurtado Albir, 2001: 63). O contrário também se pode verificar, especialmente se se trata de um texto poético em que o tradutor conhece a importância e a exclusividade da palavra isolada (Barrento, 2002).

A (im)possibilidade da tradução é literária costuma ser alvo de debate entre os
estudiosos da tradução. É aceitável afirmar que a tradução perfeita de uma obra é uma utopia, pois a tradução literária “produce una sobrecarga estética” e, muitas vezes, “los textos literarios suelen estar anclados en la cultura de partida, presentando […] múltiples referencias culturales” (Hurtado Albir, 2001: 63). Não obstante, acreditamos que um tradutor pode aproximar-se da perfeição “cuanto mejor entenda […] el sentido del original, cuanto más comprenda de su mensaje literario, cuanto más se acerquen las vibraciones de su espíritu a las que el autor transmitió a la obra” (García Yebra, 1989: 130).

Um dos desafios de um tradutor literário é a compreensão total da obra literária.
García Yebra (1989) acredita que a compreensão não é o suficiente para traduzir, mas
considera-a como sendo a primeira coisa a fazer, o trâmite prévio do tradutor. Para além da
compreensão, para ter sucesso na tradução literária, o tradutor deve de ter “amplios
conocimentos literarios y culturales y determinadas aptitudes relacionadas con el
funcionamento de esos textos (buenas habilidades de escritura, creatividad, etc.)” (Hurtado
Albir, 2001: 63). Em adição a estas características, e seguindo a linha de pensamento de García Yebra, Barrento disse o seguinte:

“na tradução do texto de prosa […] poderíamos dizer que a questão essencial é
muito provavelmente a da detecção e reconstituição dos humores do texto […]
significa que, antes de começar a traduzir, é preciso tomar o pulso ao texto, sentir-lhe
a passada (o ritmo), ouvir-lhe a respiração, descobrir-lhe o humor”. (2002: 49)

Em suma, apesar de não existir uma fórmula mágica que nos permita traduzir de forma exímia um texto literário de uma língua à outra, é possível aproximar-nos da perfeição, caso
consigamos compreender, após várias leituras, a mensagem da obra, compreendendo os seus humores, tanto do texto como do próprio autor.

BARRENTO, João (2002). O Poço de Babel. Para uma Poética da Tradução Literária. Lisboa: Relógio D´Água.

GARCÍA YEBRA, Valentin (1989). En torno a la traducción. Madrid: Gredos.

HURTADO ALBIR, Amparo (2001). Traducción y traductología. Madrid: Cátedra.

SAN GINÉS AGUILAR, Pedro (1998). Traducción teórica: planteamientos generales y teóricos de la traducción.

TORRE, Esteban (2001). Teoría de la traducción literaria. Madrid: Editorial Sintesis.

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Excelente texto, obrigados. De facto fazer uma tradução é sempre um equilibrio delicado entre a literalidade do texto original e o espírito do texto para que seja bem assimilado pela língua receptora, para usar a expressão de Esteban Torre que tu citas. No caso da poesia, o processo por vezes complica-se ainda mais, pois por vezes é necessário manter a rima.

Em tempos traduzi o Hino à Alegria de Schiller, usado na 9. sinfonia de Beethoven, e de facto foi algo bastante laborioso manter cumulativamente a literalidade do texto original. o espírito do poema na língua receptora, neste caso o Português, mantendo ainda a rima e a métrica.

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Obrigado.

De facto, quanto mais de teor literário for o texto, mais difícil será a missão. Não há dúvida que a tradução de textos poéticos é um bicho-de-sete-cabeças, uma vez que há que ter em conta vários aspectos determinantes, como esse de manter a rima. É um trabalho que exige muita dedicação e esforço, para além – claro – de uma excelente compreensão do texto fonte e da língua de destino.

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