Uma breve análise à obra Ensaio sobre a cegueira do ponto de vista ideológico

O passado político de Saramago importa para compreender a ideologia patente em Ensaio sobre a cegueira. Saramago esteve um bom tempo da vida envolvido na vida política portuguesa, filiando-se no Partido Comunista Português depois de 1974, quando exerceu militância em compasso com a Revolução dos Cravos. Numa entrevista, em 2004, José Saramago admite ser agora (leia-se 2004) um “comunista libertário”, definindo-o, em seguida, como uma “concepção ortodoxa do que poderia ser o comunismo, levado ao seu último extremo, como no caso do anarquismo, levaria à dissolução do Estado”.

Na perspectiva de Marilurdes Cruz Borges e de Melina Marim dos Santos Silva, “a
marca de Saramago em sua literatura situa-se entre o real, o metafórico e o fantástico, uma
arte para inventar histórias sem nunca esquecer a crítica e comprometimento social,
preocupando-se com a sociedade e seus problemas, também com os seus próprios
questionamentos metafísicos diante desta sociedade” (2010: 187).

Resumidamente, a obra Ensaio sobre a cegueira relata-nos a história do surgimento
repentino e inexplicável de uma epidemia de cegueira branca nunca antes vista, causando o
caos entre a população. A denominada cegueira branca – adquiriu este nome pois, segundo o primeiro infectado, “é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite” (Saramago, 2014: 11) – vai-se espalhando por todo o território de uma cidade anónima. Pouco a pouco, todos os cidadãos cegam, tornando-se meros seres lutando pelas necessidades básicas, deixando transparecer os seus instintos primários. Nesta história, há uma personagem – a mulher do médico – que, misteriosamente, não cega. É através dos seus olhos (e, claro, do narrador) que o leitor observa as consequências que esta epidemia traz consigo.

A cegueira branca que se espalha pelo país vai mudar, radicalmente, a maneira de
viver das pessoas, desconstruindo uma sociedade plenamente estruturada. Na obra,
observamos como a sociedade tenta defender-se desta situação extraordinária, sendo o
instinto de sobrevivência levado ao extremo. Para além disso, o narrador dá-nos conta do
comodismo com os problemas do dia-a-dia, “pois encontramos o descaso das autoridades, o
medo, a incerteza, a indignação, a luta pela sobrevivência, e a cegueira branca que a sociedade realmente vive sem ter consciência dela, ou até mesmo consciente, vivendo desta forma por escolha e comodismo” (Cruz Borges, Santos Silva, 2010: 188). Os mesmos autores defendem que “Saramago descreve a aflição da sociedade hoje, não só sobre o que é físico, o que é visto, mas também aquilo que vai além, sobre carácter, ética, ideologia, humanismo, dignidade, sentimentos há muito tempo perdidos e atropelados por uma máquina maior” (idem: 188-189).

Nas obras de Saramago, o narrador é um verdadeiro contador de histórias: existe uma
fascinação exercida pelo narrador relativamente aos seus leitores, “com quem mantém
contacto directo e constante” (Berrini, 1999: 55). Em Saramago, o narrador está
constantemente presente na ficção, e, geralmente, o narrador possui o estatuto de um deus,
i.e. é omnipresente e omnisciente (idem). Esta presença do narrador é evidente em Ensaio
sobre a cegueira, em que este domina toda a acção e o desenvolvimento das personagens,
conhecendo o seu passado, presente e futuro.

Quando começam a surgir os primeiros casos de cegueira, o Governo decide colocar
em quarentena os afectados, escolhendo um manicómio como albergue para os infectados.
Sem contacto com o mundo exterior, os infectados são tratados como à margem da sociedade, sendo vistos como pessoas que não se enquadram naquilo que consideramos normal. Ora, os marginalizados são, normalmente, alvos de atenção do autor. De acordo com Berrini, é através da palavra que Saramago cria o seu mundo, no qual dá grande relevância aos marginalizados e aos desfavorecidos pela sociedade (os ladrões, os doentes, os loucos, as prostitutas, etc.); esta é uma marca característica e indelével do humanismo de Saramago. Em Ensaio sobre a cegueira, existe, dentro do grupo de cegos liderado pelo médico e pela sua mulher, um velho (velho da venda preta), uma prostituta (rapariga dos óculos escuros), um menino estrábico e um ladrão.

Os marginalizados e o maravilhoso são aspectos recorrentes na obra do Nobel
português, tornando-se, muitas vezes, nos protagonistas dos seus romances. Saramago
valoriza aqueles que, quase sempre, são desdenhados e colocados à margem da sociedade. Em Ensaio sobre a cegueira, velhos, novos, prostitutas, empresários, ladrões, políticos, são todos postos à prova numa situação inexplicável, que apareceu da mesma forma que desapareceu; nesta sociedade cega não há lugar para a discriminação, todos têm como objectivo único a sobrevivência.

A mulher também ocupa um lugar importante e central na obra. A “mulher do médico”
é a única personagem que não cega. No entanto, acompanha o marido quando este se junta à quarentena e, aí, ajuda não só a ele, como também os outros necessitados. É uma personagem destemida, que, apesar de tudo, não receia perder a visão, sendo este, muitas vezes, o seu desejo; ela assiste à decadência do ser humano e toda a podridão adjacente.

No fim da história, a visão é reposta, gradualmente, aos cegos, sendo que os que foram infectados primeiro, também foram os primeiros a quem a visão lhes foi restituída. Portanto, acreditamos que mensagem final é de esperança. Uma esperança que a sociedade tenha comportamentos mais humanos e que todos os indivíduos se unam num mundo onde o maravilhoso está sempre presente.

BERRINI, B. (1999). Ler Saramago: o romance. Lisboa: Caminho

SANTOS SILVA, Melina Marim dos, CRUZ BORGES, Marilurdes (2010). “Um olhar sobre a
ideologia e a construção de identidades em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago”.
Diálogos Pertinentes – R evista Científica de Letras (p . 175-199). Disponível em formato PDF em: http://publicacoes.unifran.br/index.php/dialogospertinentes/article/view/467/377

SARAMAGO, José (2014). Ensaio sobre a cegueira. Lisboa: Porto Editora

Entrevista a José Saramago, María Luisa Blanco, El País - 26 de abril de 2004.

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